Gonzalo Sanchez Roma, 23 Mar A história da Roma clássica foi construída - quase sempre - por homens que escalaram uma rede de instituições e posições que, milênios depois, têm seu reflexo na estrutura do poder moderno, como sugere a exposição inaugurada hoje nos Museus Capitolinos. “Quem entre os homens é tão ignorante ou indolente que não quer saber como e graças a que forma de governo quase todos caíram sob o domínio exclusivo dos romanos”, questionou o historiador grego Políbio há dois milênios. É precisamente por isso que, para saber como os antigos romanos governam, os Museus Capitolinos da capital italiana inauguraram a exposição “Cursus honorum - O Governo de Roma antes de César”, aberta ao público até 2 de outubro. O visitante será guiado pela voz recriada de cinco esculturas de pedra, a de quatro homens e uma mulher, que expõem as conquistas alcançadas com a gestão da “res publica”. “É extremamente atual porque existem mecanismos de poder que herdamos”, explicou a superintendente da instituição, Maria Vittoria Marini Clarelli, na apresentação da exposição. Através de quatro salas, são expostas as várias etapas da carreira política, o “cursus hororum”, sobre o qual foram fundados os cinco séculos da Roma republicana, interrompida pela ascensão e assassinato de Júlio César, a guerra civil e o estabelecimento do Império por Augusto. Com a chegada da República, em 509 aC, as funções dos sete reis primitivos foram divididas entre o poder religioso, o mais alto pontífice e o poder civil. Quem entrou nessa “corrida de honra” teve que provar o prestígio de seus ancestrais, por isso era na prática um privilégio das antigas famílias patrícias. AS ETAPAS DO GOVERNO Os primeiros passos dessa pirâmide foram a posição de questor, vigilante das finanças públicas; seguido pelos tribunos da plebe, uma espécie de procuradores; depois os conselheiros, que organizaram a vida civil como os atuais prefeitos ou vereadores, e depois os pretores, administradores da justiça. O mais alto cargo de cônsul era ocupado por dois magistrados, responsáveis pelo governo e com comando militar, e os censores eram outros dois eleitos a cada cinco anos e atuando como árbitros políticos. O poder supremo pertencia ao “ditador”, uma posição extraordinária à qual Roma concedeu plenos poderes por seis meses em casos de emergências ou crises. Todas essas funções, colegiais, eletivas e com uma duração pré-estabelecida, permanecem mais do que válidas nos sistemas do mundo moderno, bem como em nossa linguagem política. CINCO TESTEMUNHAS EXCEPCIONAIS As cinco esculturas que acompanham o tour da exposição ostentam os louros que ganharam na vida. Por exemplo, mostra a reconstrução de uma coluna comemorativa da primeira vitória naval dos romanos, em 260 aC contra os cartagineses, ou fragmentos do túmulo da família Cornelia, o dos influentes scipios. A estátua mais interessante é o “Togato Berberini”, uma figura majestosa de um homem em seu manto, que remonta ao século I dC, que carrega nas mãos os bustos de seus ancestrais, lembrando o valor da honrabilidade para as “gens” ou dinastias familiares romanas. Era o que ficou conhecido como “Ius imaginum”, ou seja, o direito que os patrícios tinham de exibir retratos e emblemas de seus parentes mortos em espaços públicos, prerrogativa que a partir do século IV aC foi estendida aos plebeus. UM EXEMPLO DE PODER NAS MULHERES A exposição mostra um único exemplo de poder feminino, o de Cornelia, filha de Scipio, o africano, que venceu Aníbal na Segunda Guerra Púnica (218-201 aC), e que representou o paradigma da “Matrona Romana”, também na era imperial subsequente. Ela se casou com o cônsul Tibério Sempronio Gracco, de quem teve doze filhos, mas apenas três sobreviveram: Sempronia, dada como esposa a Publius Cornélio Scipio Emiliano, e Tibério e Gaio Gracco, duas figuras-chave nas últimas décadas do século II aC. gsm.ch (foto) (vídeo)
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