Anxo Lamela Copenhague, 25 Mar A aprovação de uma lei generosa para aqueles que fogem da guerra na Ucrânia expôs a dura política de asilo da Dinamarca, com acusações de algumas partes e organizações não governamentais de dois pesos e duas medidas. A Dinamarca tem sido caracterizada nas últimas duas décadas por uma linha dura sobre a imigração apoiada pelos sucessivos governos de direita e esquerda que governaram este país, numa corrida que há muito se juntou ao Partido Social Democrata, tradicionalmente o mais votado e atualmente governa em minoria. A crise dos refugiados na Síria deu lugar a medidas controversas, como uma lei para confiscar bens de peticionários, um projeto para manter criminosos pendentes de expulsão em uma ilha ou uma mudança de paradigma que implica que o objetivo não é integrar refugiados, mas focar em um futuro retorno aos seus países. O facto de a Dinamarca não fazer parte da política comum da União Europeia (UE) em matéria de imigração, devido às exceções que mantém desde 1993, e o rigoroso sistema em vigor forçaram uma lei específica a ser apressada, a fim de poder oferecer aos ucranianos condições semelhantes às de outros países europeus países. Assim, embora a Dinamarca tenha como objetivo declarado receber o menor número possível de refugiados e criar centros de acolhimento no exterior para peticionários, seu Parlamento acaba de adotar urgentemente, com o apoio da maioria, uma lei especial que concede asilo, trabalho, reagrupamento familiar e educação aos ucranianos. UM SISTEMA DE ASILO EM QUESTÃO “Nos últimos vinte anos, construímos uma das políticas de asilo e imigração mais repressivas da Europa, que se baseia na ideia de assediar refugiados para desencorajar os que estão de fora”, explica Tim Whyte, secretário-geral da Associação Dinamarquesa para a Organização Internacional, à Efe Tim Whyte. A diretora do ramo juvenil da Ajuda aos Refugiados, Natasha Al-Hariri, acredita que “ficou muito claro que nosso sistema de asilo está quebrado em pedaços”. A generosidade para com os refugiados ucranianos contrasta com outros exemplos recentes: a Dinamarca é pioneira na Europa há um ano na retirada do estatuto de refugiado de alguns sírios que chegaram ao país, considerando que a região de Damasco é uma área segura, e já devolveu um pequeno grupo. Al-Hariri denuncia a “óbvia diferença de tratamento”: a generosidade para com os ucranianos, que são chamados de “banidos”, contrasta com um sistema que tem como objetivo reconhecido “tornar a vida impossível” para os refugiados em geral. O governo social-democrata dinamarquês minoritário e vários partidos rejeitam as críticas e enfatizam que este é um caso especial. ÁREA DE PROXIMIDADE “O que há de diferente neste conflito em relação aos outros é que é a nossa área de proximidade e é por isso que temos uma responsabilidade especial”, disse a primeira-ministra Mette Frederiksen. Para Al-Hariri, este é um conceito “inventado” pelos políticos: “Eles também poderiam ter dito que é a Alemanha ou apenas os países fronteiriços. É um conceito elástico que é válido para tudo, mas que não está definido em nenhum lugar ou em nenhuma legislação.” Embora o Governo e as principais forças políticas o neguem, a extrema-direita do Parlamento não esconde o fato de que o tratamento diferenciado se deve a fatores culturais e religiosos. “O problema dessa lei é que ela acaba em uma sociedade dividida e quem recebe asilo e em que condições depende de coisas como sua religião”, denuncia Whyte. A controvérsia sobre o que é apelidado de “lei dos ucranianos” também se estende ao seu financiamento: dos 2,2 bilhões de coroas dinamarquesas (296 milhões de euros) que custará este ano, 90% serão retirados da ajuda à cooperação, apesar dos protestos de aliados do Executivo, que tentaram, sem sucesso, forçar uma emenda. “É justamente porque estamos enfrentando a maior crise de refugiados desde a Segunda Guerra Mundial que não devemos financiar este acordo com cortes na ajuda à cooperação. Não faz nenhum sentido”, disse Rosa Lund, porta-voz sobre imigração da Lista Unitária vermelho-verde, a quinta força parlamentar. As principais ONGs dinamarquesas e vários parlamentares de esquerda participaram esta semana de um protesto perante o Parlamento para exigir uma política de asilo mais igualitária. E embora as principais reformas de imigração e asilo nos últimos anos tenham sido apoiadas por três quartos da Câmara, os críticos da política dinamarquesa estão otimistas. “Acho que podemos estar testemunhando uma nova mudança de paradigma. A solidariedade demonstrada com os ucranianos pode nos fazer repensar se quisermos uma sociedade que marginalize os requerentes de asilo”, resume Whyte. CHEFE alc/egw/jgb (Recursos de arquivo www.lafototeca.com Códigos: 3813056, 3813057 e outros)
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