Ricardo Darín e Andrea Pietra retomam o caso conjugal em tempos de barbárie

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Rodrigo Garcia Buenos Aires, 23 Mar Ricardo Darín e Andrea Pietra são mais uma vez o casamento artístico. Eles retomam na Espanha a peça “Cenas da vida de casado”, uma história engraçada de “mini tragédias diárias” que os reúne com o público após dois anos de hiato pandêmico e com um mundo à beira da guerra: “Meu maior medo é que estejamos nos acostumando com a barbárie. Como espécie, não terminamos de aprender”, diz o ator argentino à Efe. Como se fosse a primeira vez no palco, o entusiasmo de reinterpretar os protagonistas da adaptação teatral da minissérie e do filme “Secrets of a Marriage” (1973), de Ingmar Bergman, é sentido por ambos os intérpretes, que em março de 2020, devido ao surto do coronavírus, tiveram que adiar uma turnê espanhola que , finalmente, começará em 30 de março nas Ilhas Canárias. “Acho que o mundo mudou, o mundo mudou e os relacionamentos são diferentes. A grande questão é, pelo menos para nós, o que vai acontecer nos cinemas que vamos, qual é a relação com o público agora, porque estamos acostumados a ter uma relação muito direta com o público por causa do tipo de show que é”, diz Darín, embaixador por excelência da Argentina cinema no mundo, durante uma entrevista em Buenos Aires, onde nasceu em 1957. Pietra, que tem uma longa carreira de ator no cinema e na televisão, atesta o amor que seu parceiro desperta na Espanha, como descobriu quando foram apresentar a peça outras vezes: “as pessoas o amam e é por isso que também me conhecem por rebote. (...) Ricardo é um ator espetacular, porque além disso ele é absolutamente verdadeiro, cada palavra que ele diz é verdadeira. É lindo atuar com alguém assim porque você é uma atriz melhor.” “NÃO CALE A BOCA” A retomada da turnê coincide com o impacto global da invasão russa da Ucrânia, um conflito de guerra que o ator de filmes como o vencedor do Oscar “The Secret in Their Eyes” e “Savage Tales” vê como “absolutamente inaceitável e anacrônico”, por usar a força para resolver assuntos que deveriam ser resolvido através da diplomacia. “Como é que nem todos saímos às ruas para dizer que o mundo para? Não podemos permitir isso”, diz, depois de também se perguntar quem ganha com esse “absurdo” de tantas vidas perdidas. Questionado sobre o trabalho que o mundo cultural pode ter neste momento, o ator acredita que não é possível perguntar a esse campo o que as sociedades como um todo não fazem: “É pedir muito de cultura, arte. Claro que há coisas para fazer, claro. Não ficar calado é uma delas, denunciar é outra”. “Meu maior medo é que estejamos nos acostumando com a barbárie. E então dizemos: 'Bem, vamos torcer para que agora isso não se transforme em uma guerra nuclear'... claro, 'para que não me afete'. Alguém tenta fazer o exercício do que significa estar em Kiev agora. Não aprendemos, como espécie, não terminamos de aprender. É difícil encontrar outras espécies que se atacam como nós”, reprova. QUASE UMA DÉCADA DE SUCESSO Estreado em 2013 no teatro Maipo em Buenos Aires com produção de Lino Patalano, “Cenas da Vida de Casado”, versão dirigida por Norma Leandro, já esteve na Espanha e na América Latina com Darín como protagonista masculino e desde 2017 com Pietra, com quem já havia trabalhado no cinema e na televisão. Em um contexto atemporal, a história conta, entre diversão e drama, o casamento de Juan e Mariana, mas também seu divórcio, com situações com as quais o público pode se identificar “independentemente de como as relações mudam ao longo dos anos”, sejam abertas ou fechadas ou não, resume a atriz, nascida em Buenos Aires Aires em 1968. “É como entrar na intimidade de um casamento e reconhecer muitas coisas que você sabe. Acho que colocar na frente do outro também é curativo”, acrescenta. Darín destaca a abordagem engraçada dessas “mini tragédias diárias” e não esconde o caráter machista e polêmico de seu personagem: “Ele tem apenas uma coisa a meu favor, que é uma das coisas que me levou a enfrentá-lo, que é que ele tem sinceridade bestial, ele não mente. Isso de alguma forma o resgata um pouco.” A obra critica a estrutura do casamento ortodoxo mas entre duas pessoas “que se amam profundamente”, diz a intérprete, que destaca a credibilidade, frescor, ternura e feminilidade que Pietra dá aos seus personagens. A nova turnê da Espanha começa em Las Palmas e até 29 de maio passará por Lanzarote, Fuerteventura, Tenerife, Santiago de Compostela, Palma de Maiorca, Granada, Málaga e Sevilha. CHEFE rgm/cjn/laa (foto) (vídeo)