Ibis, o “pior time de futebol” do mundo, cansado de perder

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O Ibis Sport Club se orgulha de seu apelido: o “pior time do mundo”. Seu mascote se chama “Derrotinha” e seus fãs protestam quando ganham jogos. Mas depois de décadas de erros esportivos, este modesto clube no nordeste do Brasil agora quer vencer.

Na quadra, o chamado “Pássaro Negro” esculpiu sua fama como um eterno homem derrotado, especialmente no início dos anos 1980, e na era das redes sociais, ele conseguiu tirar proveito de um apelido do qual muitos fugiriam.

“Vamos deixar a história da 'pior equipe do mundo' até os anos 80, quando o Ibis realmente era o pior time do mundo. Hoje não estamos, mas isso fica para o marketing, para que eles possam nos conhecer”, diz à AFP o entusiasta presidente do elenco, Ozir Ramos Júnior.

O técnico de 64 anos justifica sua alegria em incentivar razões esportivas e financeiras, que deram asas a este clube no município de Paulista, localizado a cerca de 18 quilômetros do Recife, e que costuma competir na segunda divisão do campeonato pernambucano.

Décadas de campanhas publicitárias jocosas que repeliram a vitória se concretizaram em junho passado com a assinatura do maior patrocínio deste plantel octogenário, com a empresa sueca de apostas online Betsson.

A “oferta” para Lionel Messi se juntar a eles depois de deixar o Barcelona (com a condição de não marcar “muitos gols” ou ser campeão), comparações com o PSG porque nenhum deles elevou a Liga dos Campeões ou chances de lançamentos em crise lhes deu visibilidade inesperada.

- Os “vencedores” -

Por essa fama “somos conhecidos em todo o planeta, mas isso não pode ser misturado com o lado profissional. Temos pessoas competentes lá”, esclarece Ramos.

O patrocínio possibilitou melhorar a infraestrutura e pagar salários ao plantel, formado por goleiros ou garçons que anteriormente jogavam por “amor à camisa”.

Na temporada passada, eles subiram pela primeira vez em 21 anos para a primeira divisão do Campeonato Pernambucano, que é disputado antes do início da liga e é a porta de entrada para a Série D. Mas sua permanência está ameaçada por maus resultados.

“Hoje em dia você pode ver que (...) só trabalhamos com vencedores. Vamos nos livrar dessa referência!” , diz Paulo Jesse, diretor técnico e guarda escolar.

Fundada em 1938 pelos proprietários de uma empresa têxtil em Recife, a Ibis criou sua má reputação ao durar três anos, onze meses e 26 dias sem vencer (20 de julho de 1980 a 17 de junho de 1984).

Foram 54 jogos sem comemorações (48 derrotas e seis empates), com 25 gols marcados e 225 sofridos, lembra Israel Leal, autor do livro “The Flight of the Black Bird: The Story of the Ibis, the Worst Team in the World”.

Em meio a essa sequência, a revista Placar deu a eles a reportagem “Este é o pior time do Brasil”. Eles se tornaram alvo de zombaria, mas aproveitaram a oportunidade para criar uma marca sustentada na derrota e até se gabar de ter obtido um recorde do Guinness para o qual não há registro.

- Ídolo muito terreno -

“Por muitos anos, o Ibis só perdeu e agora está ganhando. Depois voltamos àquela história de que o Íbis é resistência, que parece gente quando está em mau momento e começa a lutar para vencer”, ressalta Leal.

Embora Náutico e Sport Recife, que variam entre a primeira e a segunda divisões do Brasil, sejam os elencos mais populares, o plantel chegou a Pernambuco... pelo menos no coração dos torcedores.

“O Ibis é o segundo time do qual os pernambucanos são fãs”, diz Ramos, cuja família assumiu o clube depois que a empresa fundadora retirou o apoio.

Lendas como o bicampeão mundial Vavá ou Rildo, companheiro de equipe de Pelé em Santos, passaram pelas categorias menores do “Pássaro Negro”.

Mas a simpatia foi alimentada por personagens cativantes, incluindo Mauro Shampoo, um cabeleireiro como o de René Higuita, que defendeu o casaco vermelho-preto no final dos anos 1980.

Ídolo principal do clube, o ex-voador jura ter marcado um gol, em um revés de 8-1 com o Ferroviário de Recife. Mas não há registros desse placar e o presidente da época alegou que era um gol contra.

“Foi isso que o folclore permaneceu”, diz Leal. O folclore da “pior equipe do mundo”.

raa/app/ol